Embora fosse fácil sair daquela casa, queria conhecê-la melhor pelos cantos. Não deixei que ninguém me notasse, pensei até em usar um pseudônimo no caderno de visitas, e depois que descobri que ela estava lá, sentada próxima ao balcão tomando uma cerveja quis virar uma névoa e ser somente observador.
Passei por entre duas garotas que se beijavam e uma delas me provocou com um sussurro. Não percebi o que ela dizia e preferi retribuir com uma carícia perto do seio nu. Me pareceu não gostar muito da minha audácia involuntária, mas não teve muita atenção para politizar. A outra pegou-a pela cintura e voltaram a se explorar. Sentei próximo ao balcão e pedi uma cerveja, enquanto apreciava outras exibições.
Ela me reconheceu logo que dei os primeiros dois goles e caminhou em minha direção. Subiu um sangue indiscreto em minhas bochechas que ganharam mais textura quando ela me cumprimentou com um beijo. Abraçou-me e disse que era uma surpresa me ver lá, que se soubesse teria tratado de se vestir melhor.
Conversamos pelo resto da noite em intervalos de quinze minutos. No último ela parecia desgastada e cansada, disposta apenas em relaxar os músculos. Cheirava uma mistura de muitos perfumes e tinha um vermelho no pescoço que disse ser batom.
Se queria passar no médico para ver o que era aquele hematoma no pescoço nem perguntei. Reparei que ficava roxo na medida em que o sangue esfriava e andávamos até em casa. Quis entrar e beber um drink. Não tinha muito o que oferecer então tomou um suco de laranjas. No quintal dos fundos tinha um pé que ela mesma cuidava e de tempos em tempos recolhia uma quantidade para sustentar os pedidos exóticos daquela casa.
Dormia e pensei que não acordaria mais. Sentei de frente para a televisão e busquei conforto na imagem dela naquela casa. Pensei nas duas garotas lésbicas, talvez a dignidade estivesse no lado em que se olha algo. Cochilei, tão logo meu rádio-relógio despertou. Tentei não acordá-la, mas ela gritou:
- Pai! Desliga isso que eu to com sono!
Ricardo Celestino
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
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Tem uma atmosfera interessante. A tal sombra está ali. Mas falta palavras: muito ela, as vezes nao sei se é ela, ou a casa, ou uma das lesbicas. Sobre o pe no quintal dos fundos para sustentar os pedidos exoticos, fiquei curiosa, mas nao entendi. Acho que voce pode investir mais nesse texto, Ricardo, que ele é bom. Beijos!
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